ÁLCOOL E CIGARRO

(João Vinícius)


Garota, eu poderia facilmente te dizer que não sou romântico.
Mas o álcool no entanto, me torna um tanto quanto
o que você gostaria que eu fosse.
 
Um maço dotado de vinte retalhos,  
cada um queimando por cinco minútos entre meus dedos
me traduz o panorama perfeito do quanto a fidelidade ainda existe
e que, ainda bem, sem você eu não consigo me perder,
mas me encontrar sem ter que me olhar em um espelho
sobre a pia de um banheiro de bar.
 
Sabe, garota, assim como Roma de trás pra frente
pode significar algo interessante de se observar
o álcool e o cigarro não me dizem o mesmo.
Contudo os tenho respeito pois, ocupando-me as mãos com estes,
me encontro no silêncio mais solene  
que nem a morte poderia conceber.
 
Eu não cedo, eu não largo.
Vou no último gole e no último trago  
até que você aceite o fato de não ser a única.
Pudica, tu fazes o mesmo, mas não tem inspiração.
És ação e reação, reflexo condicionado.
Eu morro e mato por um verso inspirado
e a fonte além da vida é o álcool e o cigarro.
 
Você bem que poderia compadecer  
e se unir a estes que me fazem tão felizes.
Um não reclama do outro e ainda vivem em perfeita harmônia.
Juro que não é hipocrisia, sou contra poligamia
até porque só tenho apenas um pau.
Quero te mostrar o sublime, o que nem a palavra exprime  
por entre esta fumaça que nos separa e as garrafas acumuladas
ao lado do meu pé direito.
 
Respeito, sim, respeito muito a sua posição  
desde que esta seja na horizontal  
para receber meu corpo embriagado após uma longa jornada de inspiração
e cinco minutos após a concepção do meu escremento viscoso  
concedidos ao estalar de um isqueiro e um trago de cigarro.
 
Garota, não diga que estou doente, contrário, estou excessivamente
ciente de que quem me aponta não sabe que a felicidade desponta
sem ter que mostrar os dentes.
Por isso, sem ironias, não me digas que sou fumante inveterado
ou alcoólatra, senão te deixarei e sairei pela mesma porta a qual  
entrei na sua vida.
Se queres me rotular me tome como alcoólico e tabagista.
Tabagista pela dignidade de se consumir artísticamente o fumo
por entre cruzadas de pernas, jeito, pose, caras, bocas e roupas.
Alcoólico apenas pelo simples fato de eu não ser alcoólatra,  
visto que, se o fosse, beberia todos os dias, o dia todo.
Não sendo, o faço apenas todos os dias.


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