Relatos Post Mortem
RELATOS POST MORTEM
(Álvaro Andrade)
Eu morri ontem. Morri cedo, eram ainda umas sete da manhã. Sete e trinta e sete, para ser mais exato. Atropelamento. Eu sempre fui mesmo muito desligado. Isso já me rendeu um assalto. Mas isso foi quando eu era vivo. Agora é tudo diferente. Eu vejo vocês. Vocês não me vêem. Acreditem, não estão perdendo nada. As coisas aqui são o mesmo tédio. A única diferença: não há dúvidas, nenhuma. Se isso é uma vantagem? Só morrendo para saber. Faz frio também, no começo. O ar, falta de corpo... Depois de um tempo vira tudo uma coisa só. Aí já não há o que distinguir. Acaba com isso.
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